Apostas online levam jovens ao endividamento e evasão universitária

Estudos indicam que apostas online ativam mesmas áreas de prazer e recompensa que drogas. Pesquisa aponta que jovens têm adiado a faculdade por dívida de jogo

O crescimento acelerado das apostas online no Brasil gera preocupação entre profissionais da saúde mental e educadores, especialmente pelos impactos diretos na vida de jovens estudantes. Endividamento, sofrimento emocional e a desistência da universidade aparecem cada vez mais associados ao envolvimento com plataformas de jogos e apostas digitais, que se popularizaram com forte presença nas redes sociais, aplicativos e campanhas publicitárias.

O estudo “O impacto das bets na educação superior”, realizado em julho de 2025 pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), em parceria com a consultoria Educa Insights, dimensiona a gravidade do problema. Segundo o levantamento, 34% dos jovens entre 18 e 35 anos que planejavam iniciar uma faculdade em 2025 adiaram a matrícula devido a gastos com apostas, o que representa quase 1 milhão de pessoas fora do ensino superior. Entre aqueles que já estavam matriculados, cerca de 14% relataram atraso no pagamento das mensalidades ou trancamento da matrícula em razão de dívidas relacionadas ao jogo.

Jovens são mais vulneráveis ao vício

Para Elton Kanomata, psiquiatra do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, os jovens estão entre os públicos mais vulneráveis ao desenvolvimento do vício em apostas online, por uma combinação de fatores cognitivos, sociais e neurológicos. “Diversos motivos podem estar por trás de jovens apresentarem uma maior vulnerabilidade ao vício em apostas online no Brasil. Do ponto de vista de maturidade, pode-se considerar que é uma faixa etária muito jovem para discriminar e ponderar potenciais riscos e benefícios de suas ações”, afirma.

Segundo o especialista, a exposição constante a estímulos externos contribui para a iniciação precoce nesse tipo de comportamento. “Isso, somado à influência recebida por propagandas em mídias e jogos em aplicativos de celular, amigos que apostam e promessas de ganho fácil de dinheiro por influencers digitais, facilita a introdução de jovens nas apostas online”, completa.

Após o primeiro contato com as plataformas, o risco de dependência aumenta, já que esses ambientes são pensados para manter o usuário engajado por longos períodos. “Após entrar em contato com essas plataformas, os jovens se deparam com programas desenhados para atrair e manter o interesse das pessoas por longos períodos, através de estímulos intermitentes de prazer (ganhos nas apostas). Isso gera a expectativa de novos ganhos e compensar as perdas”, diz o especialista.

Efeitos das apostas online no cérebro e mudanças de comportamento

Do ponto de vista neurobiológico, os efeitos são ainda mais preocupantes. “Sob o aspecto de neurocircuitaria (conjunto de conexões e vias de comunicação entre neurônios no cérebro responsáveis por regular funções como prazer, recompensa, emoções e comportamento), a área do cérebro estimulada é a mesma que a área de prazer e recompensa para o uso de drogas. Em um cérebro jovem e ainda em formação, eleva-se o risco para modificações cerebrais e atividade de neurotransmissores que levam à dependência por jogos”, alerta o dr. Elton.

O envolvimento progressivo com apostas online pode levar a consequências financeiras graves, afetando diretamente projetos de vida, como a continuidade dos estudos. Além disso, pode resultar na dependência de jogos, que levam a uma série de mudanças comportamentais, destaca o especialista. Entre elas, estão a necessidade de apostar quantias de dinheiro cada vez maiores a fim de atingir a excitação desejada, dificuldade em controlar, reduzir ou interromper o hábito de jogar e voltar a jogar para recuperar os prejuízos.

Na prática, isso se reflete no uso inadequado de recursos financeiros. “Assim, é comum que jovens relatem ao médico ou psicólogo o uso de dinheiro [que seria] destinado ao pagamento de contas. Resultado: muitos acabam endividados e desistindo de planos, como a faculdade”, relata o médico.

Principais sinais e impactos da dependência em apostas online

Reconhecer os sinais de dependência é fundamental para interromper esse ciclo. De acordo com o dr. Elton, os principais sinais de dependência em apostas online que indicam que o jovem precisa de ajuda são o ato de apostar persistente e recorrente e que sejam desadaptativos, ou seja, levam à sofrimento e prejuízos emocionais e comportamentais significativos.

“É muito comum que apresentem pensamentos persistentes sobre experiências de apostas passadas, avaliem possibilidades ou planejem a próxima quantia a ser apostada, além de pensar em modos de obter dinheiro para jogar e, assim, recuperar as perdas financeiras”, detalha ele.

Os impactos da adição extrapolam o indivíduo e atingem diretamente as famílias. Os prejuízos financeiros e emocionais causados pelo jogo patológico podem variar bastante, de acordo com a gravidade da dependência. “O campo de prejuízos e sofrimento é abrangente, não se limitando somente a um valor em dívida significativo e suas consequências.”

No aspecto emocional, os sintomas podem ser intensos. “Do ponto de vista psicológico, o indivíduo acometido pode apresentar sintomas semelhantes à abstinência e fissura por drogas, como: inquietude, irritabilidade, pensamentos reverberantes com o jogo e graus variáveis de ansiedade e depressão”, explica o psiquiatra. Além disso, há consequências sociais relevantes, como perda de emprego ou oportunidades acadêmicas, ruptura de relacionamentos próximos e abalos nas relações familiares.

Tratamento especializado é fundamental

Para os jovens que já enfrentam esse problema, buscar ajuda especializada é essencial. Segundo o dr. Elton, jovens com dependência em apostas online podem buscar ajuda com profissionais da área de saúde mental, como psiquiatras e psicólogos. “No SUS, a porta de entrada são as UBS, onde é realizado o primeiro atendimento e, se necessário, encaminhado para serviços especializados adequados às demandas de cada indivíduo.”

Algumas instituições de ensino também podem oferecer suporte específico, como faculdades e instituições de pós-graduação que possuem programas ambulatoriais especializados em dependências comportamentais.

O tratamento pode envolver diferentes abordagens. “Além do acompanhamento psicológico, será avaliada a necessidade do tratamento medicamentoso conjunto, além do tratamento de comorbidades comuns, como transtornos ansiosos, depressão e dependências químicas”, finaliza o médico.

Tarima Nistal é jornalista e especialista em comunicação digital e marketing. Interessa-se por questões relacionadas à saúde das mulheres, alimentação saudável e meio ambiente.

Extraído do Portal Drausio