Janeiro branco o ano todo: é hora de ir além da performance do cuidado
O Brasil lidera o ranking mundial de ansiedade, com cerca de 9,3% da população afetada, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2019. Isso significa que de 18 a 19 milhões de pessoas sofrem com o transtorno (em dados colhidos há 6 anos).
Na semana passada, a Previdência Social mostrou que registros de auxílio após afastamentos por burnout saltaram de 823, em 2021, para 4.880 em 2024. E, como lembrou meu colega de UOL, Leo Sakamoto, os números do governo, trazidos por reportagem de Cristiane Gercina e Júlia Galvão, na Folha de S.Paulo, certamente estão subnotificados.
No artigo, ele também registra que os dados de 2025 ainda não estão fechados, mas só nos seis primeiros anos, os registros foram de quase 3,5 mil auxílios. Depressão, ansiedade, desespero, medo, prostração, dores físicas.
"Se você está minimamente conectado com a realidade à sua volta, aposto que estes números não vão te surpreender. Quantas pessoas do seu entorno estão atravessando estes transtornos, males ou síndromes? Quantas estão diagnosticadas e medicadas?"
O Panorama da Saúde Mental, produzido pelo Instituto Cactus, mostra que a realidade dos números está relacionada a uma série de aspectos; e recentemente, divulgou dados importantes sobre a ansiedade climática.
Os números nos comovem, as pessoas adoecidas ao nosso redor nos preocupam, mas o que estamos concretamente fazendo para cuidar destas epidemias? E o que tudo isso tem a ver com a aceleração da vida?
A aceleração está no plano de fundo destas mazelas. A vida hiperconectada, a cultura da produtividade tóxica, a necessidade permanente de desempenho e o hiperconsumismo são alguns dos pilares de uma condição de vida que se manifesta no corpo como sintoma. Por isso, não deveríamos tratar estas questões de saúde mental como coisas pontuais e individuais.
"Saúde mental não é apenas a pessoa ter tempo para se cuidar. Saúde mental só se garante com cuidado coletivo e políticas públicas."
Janeiro branco é uma iniciativa relevante, um convite à consciência que traz à tona estes números, mas não pode servir para reforçar a narrativa de que cada um é responsável exclusivo por sua "própria" saúde mental. Saúde mental só existe no coletivo.
Outra interface com a cultura da aceleração é o elemento de marco no tempo. Janeiro branco não pode ser apenas janeiro; precisa ser o ano inteiro. O mundo hiperconectado faz com que a gente atravesse estas questões quase como mais uma trend. Estas campanhas são importantes para trazer a questão à tona, mas não é exclusivamente em janeiro que devemos cuidar da saúde mental.
O "gancho" é aproveitado por pessoas, influenciadores e empresas que querem "estar bem na fita" e ganhar um "selo", mas que raramente se comprometem de fato com a saúde de seus colaboradores ao longo do ano. Aqui, eu lembrei que chamei isso de wellness washing.
A lógica do desempenho e da performance distorce estas iniciativas e transforma em performance de cuidado o que teria potencial real de transformar vidas. Por isso que eu afirmo que janeiro branco não pode ser isso; e o cuidado deve durar o ano todo.
Este ano, temos algumas agendas políticas importantes que buscam dar conta da questão de forma coletiva: o debate sobre o fim da escala 6 x 1 de trabalho, a realização daPesquisa Nacional de Saúde Mental (PNSM-Brasil) pelo Ministério da Saúde e a implementação da Norma Regulamentadora 1, do Ministério do Trabalho, que estabelece as diretrizes para a gestão da segurança e saúde no trabalho (SST), com foco na prevenção de acidentes e doenças. A NR1 foi atualizada para incluir a obrigação das empresas de gerenciar riscos psicossociais (como estresse, assédio e sobrecarga) e deve potencializar um movimento de cuidado importante.
"Do ponto de vista do discurso, ninguém vai discordar que é preciso cuidar das pessoas, desacelerar e tratar estas síndromes e transtornos que nos impressionam com estes números. Mas é preciso que a prática acompanhe o discurso. Como legado do janeiro branco, que possamos afirmar: saúde mental é coletiva e cuidado dura o ano inteiro."
Michelle Prazeres - Colunista de VivaBem
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Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. |