Aneurisma da aorta: silenciosa, essa doença costuma ser uma má surpresa

Ela é conhecida por ser a maior artéria do organismo. Verdade!

A aorta desce do coração até, mais ou menos, a altura do seu umbigo. Maior do que o seu tamanho, só os dois sustos que ela pode dar. Um deles, eu diria, é ruim. O outro, pior ainda.

Alguém pode fazer um exame de imagem, como uma tomografia ou um ultrassom de rotina, sem nem imaginar o problema e, por puro acaso, descobrir que um trecho desse enorme vaso começou a se dilatar. Má surpresa. Algo precisará ser feito.

É que essa dilatação, ou aneurisma, não dá sintoma algum

Aproveitando: é um aneurisma que você vê na imagem que ilustra esta coluna. Ele é capaz de crescer como um balão silenciosamente. Traiçoeiramente.

Por sinal, essa figura de linguagem, a que os médicos sempre apelam para explicar a gravidade do caso, é ótima porque, de fato, feito aquela bexiga de festa ao ser soprada, na medida em que ganha volume a parede da aorta vai ficando mais e mais fina até — "bum"! — estourar.

Agora, imagine o estrago quando isso acontece, já que, por ela, passam uns 5 litros de sangue por minuto. A hemorragia leva a um risco de morte superior a 90%.

O outro susto, aquele que é pior ainda, é quando brota do nada uma dor infernal no meio da barriga, que às vezes se reflete nas costas. Ela pode ser o prenúncio de que, dali a poucas horas, a aorta irá se romper. Ou talvez isso tenha acabado de acontecer…

Aí, o roteiro da tragédia segue adiante com o coração saindo pela boca de tão acelerado. É que, desavisado, ele recebe sinais de que o sangue oxigenado não está chegando aos órgãos e, sem desconfiar do vazamento, passa a bater mais rápido em uma tentativa de compensar. Os próximos passos são perda de consciência e, se nada for feito nas primeiras horas, morte.

Aprendi tudo isso conversando com um papa no assunto, o cirurgião cardiovascular Renato Kalil, professor da UFCSPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre) e médico do Hospital Moinhos de Vento, também na capital gaúcha. "Na cardiologia, em geral a aorta fica meio de lado, não é mesmo?", constata, em tom quase de incompreensão. Afinal, tratou seus primeiros casos de aneurisma nessa artéria ainda em 1972, publicando artigos científicos importantes sobre o tema desde aquela década…

Por que a artéria se dilata?

"Principalmente, por duas razões", o médico explica, ao ouvir a minha dúvida. "Uma delas é a degeneração da parede do vaso, que fica enfraquecida. A outra é a hipertensão, com o fluxo sanguíneo forçando essa área vulnerável."…

A pressão arterial nas alturas é mesmo um fator de risco considerável. "Até uma aorta com estrutura normal, se submetida a uma pressão alta por muito tempo, pode se dilatar e formar um aneurisma", conta o professor Kalil. "Sua parede esticada, então, fica mais tensa e, às vezes, sofre rachaduras na parte interna. É o que chamamos de dissecção de aorta."

Parênteses: a dissecção é outro problema. O rasgo no lado interno do vaso muitas vezes faz com que seu revestimento se descole, com o sangue passando entre as camadas das paredes. É uma emergência daquelas! O paciente precisa ser operado em 24 horas e olhe lá.

Voltando aos aneurismas, a idade é mais um fator para deixar todo mundo ligado, de acordo com o médico. A partir dos 50 anos, especialmente se a pessoa tiver hipertensão, a aorta deixa de ser a de sempre e uma dilatação pode acontecer. Se bem que o aneurisma não tem idade. "Nos mais jovens, inclusive em adolescentes, o enfraquecimento dessa artéria está relacionado a condições genéticas."

Genéticas e, diga-se, hereditárias. Daí o aviso do cardiologista: "História familiar de morte súbita precisa chamar a atenção. Pode acontecer de a pessoa nem ter ideia de que perdeu o parente por causa de um aneurisma na aorta. Se a morte súbita de um familiar for relatada ao médico, ele deverá pedir um painel genético, além da ressonância e da tomografia da aorta. Conforme o resultado, eu chego a indicar uma cirurgia profilática só para prevenir mais uma morte súbita adiante."

Isso porque há uma verdade dura, independentemente de alguém ter ou não na família gente com o mesmo problema: "Quando a aorta começa a dilatar, ela não para. Nada impedirá que continue dilatando", afirma o especialista. Ou seja, o jeito é mais dia, menos dia, cortar o pedaço alargado e frágil.

Sem esperar dilatar tanto

O professor Kalil se recorda da época em que a cirurgia da aorta era muito arriscada. "Nós só operávamos em situações extremas", diz ele. "Hoje, porém, quando o procedimento cirúrgico é eletivo, isto é, quando não se trata de uma decisão de uma hora para outra por ser uma emergência e, sim, algo planejado com calma, agendado para a data escolhida, o risco de vida é de 1% apenas. Precisamente, a pessoa tem 98,99% de chance de sair do hospital com tudo resolvido."

Normalmente, a aorta de um adulto tem cerca de 2 centímetros de diâmetro. Segundo o cardiologista, estudos mostram que, a partir de 4,5 centímetros, a probabilidade de ruptura já é alta. "No caso de mulheres grávidas, a partir de 4 centímetros já existe um perigo bem maior", esclarece. "Isso porque a pressão pode variar muito durante a gestação e as estruturas incham também."

Portanto, a grande mudança nesse campo da medicina é que, com o avançar das técnicas e o conhecimento do perigo, a cirurgia se tornou mais, digamos, liberada.

Nela, o cirurgião substitui o pedaço dilatado por uma prótese com jeitão de tubo. A prótese é feita de um tecido inerte, que não oferece perigo de rejeição e que aguenta bem o tranco o sangue circulando. O professor garante: a prótese fica tão bem encaixada na aorta que pode ser considerada vitalícia. Mas, sim, existem aqueles sujeitos menos sortudos nos quais, num belo dia, a aorta que já teve um aneurisma resolvido começa a se dilatar em outro trecho, como se pedisse bis.

O risco que empurra de vez o paciente para a mesa de operação é calculado, mais do que pelo simples diâmetro do vaso, por tabelas que consideram até mesmo a estatura do cidadão. Isso porque há uma complexa relação entre a ameaça de ruptura e a superfície corporal. O médico exemplifica: "Vamos supor, uma pessoa com 1,60 metro de altura e uma aorta com 4,5 centímetros de diâmetro pode ter um risco de ruptura de 7% a 12% ao ano. Ele é de intermediário a alto. Melhor operar".

As diretrizes americanas e europeias já estabeleceram que o risco nem precisa estar em uma faixa tão elevada para a cirurgia ser feita em grávidas e pacientes com alguma condição genética. "Na verdade, uma pessoa sem hipertensão, nem histórico familiar de morte súbita já tem indicação cirúrgica se o diâmetro do vaso ultrapassa 5 centímetros", informa. "Desde que, claro, ela possa ser operada por uma equipe experiente nessa condição.".

Antes os médicos esperavam a aorta se dilatar até ficar com 5,5 centímetros ou mais, uns 5,8 centímetros de diâmetro. Agora, seguros dos bons resultados, eles levantam a seguinte questão bem mais cedo: para que, afinal de contas, correr o risco de morrer em um susto?

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

 

Lúcia Helena - Colunista de VivaBem

Extraído do Portal UOL – Seção VivaBem