“Parece que estou dentro de um filme”: o que é o transtorno de despersonalização/desrealização

O problema de saúde mental que, à primeira vista, pode soar como um relato de experiência mística, é angustiante e ainda pouco conhecido, segundo especialistas

O mundo, de repente, parece irreal — quase virtual —, como se você estivesse dentro de um filme ou de uma simulação. A visão se altera, os objetos e as pessoas ganham contornos estranhos, cores mais intensas, texturas diferentes. Os sons se amplificam – é possível ouvir com nitidez a batida de asas de um pássaro. Ao mesmo tempo, você não se reconhece no espelho e pode ter a sensação de se observar de fora, em terceira pessoa, como se tivesse saído do próprio corpo.

O relato acima poderia descrever uma cena de filme de ficção científica. Mas, para muitas pessoas, ele é parte da rotina. Trata-se da despersonalização e da desrealização, sintomas ainda envoltos em certo mistério que podem surgir em outros problemas psíquicos — como ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e burnout — ou como um transtorno dissociativo (estado em que há desconexão ou distanciamento da experiência interna ou da realidade) à parte, o transtorno de despersonalização-desrealização (DPDR, da sigla em inglês).

De acordo com a literatura científica, até 70% dos adultos vão experimentar sensações desse tipo ao menos uma vez na vida, geralmente em momentos de estresse intenso, privação de sono ou mudanças abruptas de ambiente. Até Sigmund Freud, pai da psicanálise, teve uma sensação de desrealização por um momento, em uma viagem para Atenas, na Grécia, em 1904. Em cerca de 1% a 2% das pessoas, porém, os sintomas persistem por semanas, meses ou anos e são acompanhados de grande angústia. E o motivo disso é uma das grandes perguntas dos pesquisadores da área.

Foi o caso do publicitário Daniel Biondi, de 37 anos. Em 2017, durante um jantar com os pais, ele percebeu que algo havia mudado. “Naquele momento, a minha percepção audiovisual virou de cabeça para baixo. Era como se tudo tivesse sido transportado para outra dimensão. Eu me sentia dentro de um filme, apenas observando aquela mesa, como se não estivesse realmente ali. A partir dali a sensação não foi embora: ficou 24 horas por dia. E então começou o martírio, que durou três anos”, relata.

O que causa DPDR?

O nosso sistema nervoso tem um mecanismo chamado resposta de luta ou fuga, ativado em momentos de perigo ou ameaça. Nesses casos, o coração acelera, a respiração se torna mais rápida, os músculos se preparam para agir e o nível de vigilância aumenta, enquanto as emoções ficam em segundo plano, afinal, não é hora de refletir, mas de correr ou enfrentar a ameaça. É uma herança evolutiva dos nossos antepassados: quando um predador surgia nas cavernas, quem reagia mais rápido tinha mais chances de sobreviver e se reproduzir. Ao longo das gerações, esse mecanismo foi preservado como parte do nosso repertório biológico de sobrevivência.

Nas pessoas com DPDR, porém, esse sistema está constantemente ativado, não apenas quando há perigo.

“Não há nada de tão grave, mas o cérebro reduz a percepção das emoções e ‘desliga’ a clareza das percepções do ambiente. É como se a pessoa precisasse apenas sobreviver, e não necessariamente vivenciar a experiência emocional — porque ela pode ser muito dolorosa ou traumática”, explica a psiquiatra Ana Carolina Sarquis Salgado, mestre em neurociências pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Há uma explicação do ponto de vista neurológico. Em pessoas com o transtorno, o córtex pré-frontal (parte do nosso cérebro associado ao controle cognitivo e à atenção) tende a estar hiperativado, enquanto a amígdala (estrutura cerebral ligada ao processamento emocional) apresenta menor atividade, segundo Mari-Nilva Maia, especializada em neurologia cognitiva e do comportamento pela Universidade de São Paulo (USP) e PhD em neurologia pelo Queen Square Institute of Neurology, na University College London, em Londres, Inglaterra.

“O correlato desse estado na pessoa que o vivencia é um exagero da resposta atencional/cognitiva (ficar hiperalerta) e uma redução da resposta autonômica (a reação automática do corpo a qualquer situação, sem você precisar pensar) e da emocional. Ou seja, um embotamento emocional. Esse embotamento emocional está relacionado com o sentimento de distanciamento do próprio eu e do ambiente, que é central no DPDR”, explica.

Quais são os gatilhos?

Os principais gatilhos são a sobrecarga emocional, que pode surgir por inúmeros fatores, e o estresse prolongado. Em pessoas que já convivem com algum transtorno de saúde mental, como ansiedade, transtorno do pânico, estresse pós-traumático, depressão ou transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), o próprio esforço de lidar com esses quadros pode desencadear as sensações. Situações de luto também podem servir de gatilho. No caso de Biondi, cujo relato descrevemos acima, os episódios surgiram junto com a ansiedade e a síndrome do pânico.

Hoje, segundo os especialistas consultados pela reportagem, a despersonalização e a desrealização também têm sido bastante associadas ao burnout, distúrbio psíquico provocado por condições de trabalho física, emocional e psicologicamente desgastantes. O estado de tensão emocional e estresse crônico pode ser tão intenso que acaba afetando o sujeito e favorecendo o aparecimento dos sintomas.

O uso de algumas drogas, especialmente a maconha, também está associado ao transtorno. Segundo pesquisas, a cannabis é rica em canabinoides, como o THC, um composto químico presente na planta. Quando o cérebro recebe repentinamente mais canabinoides do que o habitual, pode haver uma superestimulação da amígdala, resultando em reações exacerbadas de medo, ansiedade ou pânico que, por sua vez, podem desencadear a despersonalização em indivíduos mais suscetíveis.

Mas, em muitos casos, o gatilho não é um fato atual. Pode estar ligado a traumas interpessoais na infância, como abuso ou negligência emocional, abuso físico ou sexual, situações de violência, instabilidade familiar ou mesmo uma dificuldade crônica de reconhecer e estabelecer limites com o próprio corpo e com as emoções.

“Não necessariamente vai ser uma grande situação que aconteceu ali e que virou a chavinha”, diz a psicóloga Shayanne Chanaziz, cujo foco é atender pacientes com DPDR porque ela própria teve o transtorno ao longo de um ano e meio enquanto lidava com um quadro de depressão. “Na maioria das vezes, a gente percebe que é muito mais um acúmulo de momentos em que a gente se anula, em que a gente guarda os sentimentos em vez de elaborar, em que a gente sente medo de sentir, que causa o transtorno.”

Quais os principais sintomas?

Normalmente, quem apresenta despersonalização também experimenta desrealização — mas isso não é uma regra. Algumas pessoas vivenciam apenas um dos dois transtornos, ainda que eles façam parte do mesmo espectro dissociativo.

Na despersonalização, o DSM-5 descreve um estado persistente ou recorrente em que a pessoa sente um forte distanciamento de si mesma. Surge um estranhamento em relação ao próprio corpo, às emoções, aos pensamentos ou às sensações físicas. Há quem relate a impressão de estar “se observando de fora”, como se fosse espectador de si, ou passe a questionar a própria identidade (“quem sou eu?”). Outros descrevem uma sensação de vazio ou de automatismo, como se estivessem funcionando no piloto automático, quase como um robô.

Também pode aparecer a sensação de estar fora do próprio corpo — algo que, em determinados contextos espirituais, é buscado de forma deliberada, mas que, aqui, surge de maneira involuntária e desagradável.

Já a desrealização envolve uma alteração na forma como o ambiente é percebido. O mundo pode perder a familiaridade e a vividez habituais, parecendo artificial, irreal ou onírico — como se a pessoa estivesse dentro de um sonho, de uma bolha ou separada da realidade por um vidro invisível. É comum a descrição de estar “vivendo em um filme”, como falou Biondi.

Podem ocorrer ainda mudanças perceptivas, como visão turva ou excessivamente nítida, alterações no campo visual (mais amplo ou mais estreito), a impressão de que tudo está achatado ou exageradamente tridimensional, além de distorções na percepção de distância e tamanho dos objetos. Sons também podem parecer abafados, muito distantes ou, ao contrário, intensificados.

“É muito importante deixar claro que esses sintomas são muito subjetivos. As pessoas interpretam de uma forma muito única, dependendo dos seus medos e dos seus traumas. A pessoa pode ter essa sensação de irrealidade, mas a interpretação, a narrativa que ela cria para si mesma para justificar aquilo, é completamente singular”, elucida Chanaziz.

Como é feito o diagnóstico do transtorno de despersonalização-desrealização?

O diagnóstico é essencialmente clínico e depende de um passo fundamental: a exclusão de outras condições de saúde. “A gente precisa primeiro ter certeza de que não há outra coisa acontecendo e excluir outras questões clínicas, neurológicas ou psiquiátricas”, explica Salgado.

Uma vez descartadas outras possibilidades, o diagnóstico se baseia na presença de sintomas persistentes de despersonalização-desrealização ao longo dos últimos meses. Esses sintomas precisam causar prejuízo real no funcionamento da pessoa, seja no trabalho, nos estudos, nas relações ou na vida cotidiana.

Um ponto importante para o diagnóstico é que, mesmo vivenciando a sensação de estranhamento com o mundo, a pessoa mantém o chamado teste de realidade preservado. Isso significa que ela reconhece que aquela experiência — sentir-se desconectada de si ou do ambiente — é uma alteração da própria percepção, e não uma transformação literal do mundo ou do corpo.

Por que a duração dos sintomas pode variar de pessoa para pessoa?

Em algumas pessoas, os sintomas se prolongam por dias, semanas, meses e até anos — algo que ainda intriga os pesquisadores. Um dos fatores que ajuda a explicar essa manutenção é a hipervigilância: um estado em que a mente passa a monitorar constantemente o próprio funcionamento interno e a presença dos sintomas. Quando a despersonalização e a desrealização aparecem dentro de quadros de ansiedade, isso é especialmente comum.

“Eu ficava hipervigilante em relação aos sintomas. Acordava e pensava: será que eu estou desrealizado hoje? Ficava o tempo todo me checando, tentando me certificar do que estava sentindo. E aquilo foi se repetindo”, diz Biondi.

Salgado fala que há um termo para esse processo: auto-observação aumentada. “Quando a gente entra nesse estado, passa a olhar só para os sintomas e esquece o resto. E, ao perceber que eles estão ali, a ansiedade cresce, o que, por sua vez, potencializa o próprio sintoma.”

Esse monitoramento constante mantém o cérebro em estado de alerta. Quanto mais a pessoa busca o sintoma, mais ele é percebido; e quanto mais ele é percebido, maior tende a ser a ansiedade, o que intensifica a sensação de irrealidade. Forma-se, assim, um círculo de retroalimentação.

Qual é o tratamento do DPDR?

O principal tratamento para a despersonalização e a desrealização é a psicoterapia — tanto quando os sintomas aparecem ligados a outros transtornos, como ansiedade e depressão, quanto quando surgem de forma mais isolada. Quando o DPDR está associado à ansiedade e à vigilância dos sintomas, uma das estratégias do tratamento é justamente trabalhar essa observação dos sintomas, ajudando o paciente a reduzir o monitoramento excessivo e a relação de alerta permanente com as próprias sensações.

Outro passo é a psicoeducação: ou seja, ajudar a pessoa a entender o que está vivenciando, por que aquelas sensações acontecem e como o organismo reage ao estresse e à sobrecarga emocional. Também costuma haver um trabalho específico sobre pensamentos catastróficos, muito comuns diante da mudança na percepção. Não é raro que o paciente se pergunte: “Será que estou perdendo o senso de realidade?”, “Será que danifiquei meu cérebro?” ou até “Será que estou morto?”.

A terapia busca justamente contextualizar essas interpretações, segundo os especialistas, mostrando que, embora as sensações sejam intensas e assustadoras, elas não significam que a pessoa esteja enlouquecendo ou em risco. Isso tende a reduzir o ciclo de ansiedade que mantém os sintomas.

Na sequência, o terapeuta investiga a história de vida do paciente para tentar compreender as raízes do quadro. “O foco é entender aquele sujeito, como ele funciona subjetivamente, todo o seu contexto emocional, como ele se autorregula hoje e se essa autorregulação está funcionando de forma saudável ou disfuncional. Também revisitamos o passado para compreender essas raízes, com atenção especial à reconexão sensorial, física e mental”, explica Chanaziz.

Uma abordagem psicológica que tem sido utilizada também com pessoas com DPDR é a terapia de aceitação e compromisso (ACT). Em linhas gerais, é uma forma de psicoterapia que combina estratégias de aceitação com mudanças de comportamento. Na prática, em vez de lutar contra pensamentos e sensações desagradáveis, a proposta é permitir que eles existam sem tentar suprimi-los ou evitá-los — algo que pode soar contraintuitivo, mas que ajuda a diminuir o ciclo de ansiedade em torno dos sintomas.

O psicólogo Lucas Augusto Luvison de Araujo, mestre em psicologia e saúde pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), utiliza a ACT no atendimento a pacientes com DPDR. Ele próprio vivenciou episódios de despersonalização/desrealização por cerca de três meses e hoje pesquisa o tema.

“A ideia é ensinar o paciente a acolher essa experiência, a reconhecer que ela está ali sem se confundir com ela. Em vez de se identificar completamente com os pensamentos, a gente aprende a observá-los com certa distância. Isso é o que chamamos de desfusão”, comenta.

Em alguns casos, o tratamento pode incluir medicação. Antidepressivos da classe dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) são frequentemente utilizados.  Esses fármacos atuam regulando circuitos ligados ao humor e à resposta ao estresse, o que pode reduzir a intensidade dos sintomas. Há também relatos e estudos com o uso de anticonvulsivantes em determinadas situações, junto com o ISRS, especialmente quando se busca modular a hiperexcitabilidade de alguns circuitos cerebrais e a resposta de hipervigilância, que podem contribuir para a manutenção da sensação de irrealidade.

Já o tratamento neurológico mais promissor é a estimulação magnética transcraniana focada na junção temporoparietal direita ou no córtex pré-frontal, segundo a neurologista Mari-Nilva. Essas são regiões do cérebro envolvidas na forma como percebemos a nós mesmos e o mundo ao redor.

Por que muita gente não conhece o transtorno de despersonalização-desrealização?

Muitas pessoas que passam por despersonalização e desrealização não sabem o que estão vivendo. Diferentemente da depressão ou da ansiedade, que já são termos mais difundidos e reconhecíveis, o DPDR costuma ser difícil de nomear. Diante dos sintomas, é comum que quem esteja passando por isso recorra ao Google ou ao ChatGPT em busca de alguma explicação. Também há muitos relatos em fóruns e comunidades online de pessoas tentando entender o que está acontecendo.

Até entre profissionais de saúde mental, o tema ainda não é amplamente conhecido. Em grupos e relatos na internet, é frequente encontrar pacientes que descrevem os sintomas em consultas, mas não recebem um diagnóstico claro. Daniel, paciente que relatou sua experiência, e os psicólogos Chanaziz e Araujo também relatam ter enfrentado dificuldade, no início, para compreender o que estavam vivenciando e encontrar profissionais especializados.

Além disso, de acordo com os especialistas ouvidos pela reportagem, o tema ainda recebe pouca atenção na formação universitária. Há menos pesquisas sobre o transtorno de despersonalização-desrealização em comparação com outros quadros psiquiátricos, e muitos estudantes passam pela graduação em psicologia sem contato aprofundado com o assunto. Além disso, embora o transtorno já estivesse presente em versões anteriores do DSM, foi apenas em 2013, com o DSM-5, que a categoria foi atualizada e consolidada com o nome atual, o que também contribui para o desconhecimento.

Tem cura?

Existe cura. Biondi, que conviveu com a despersonalização e a desrealização por cerca de três anos, descreveu o processo de melhora como gradual e cheio de idas e vindas — e conta que uma das viradas foi entender o papel da hipervigilância.

Segundo ele, enquanto continuava monitorando o tempo todo se os sintomas estavam presentes, o cérebro permanecia em estado de alerta. Em terapia e com o uso de medicação, Daniel diz que percebeu que precisava mudar a forma como reagia às sensações.

A estratégia que passou a adotar foi seguir a vida normalmente, mesmo com a sensação ainda presente em segundo plano. Quando surgia o pensamento “estou desrealizado”, em vez de mergulhar nele e analisá-lo, tentava redirecionar a atenção para o que estava fazendo no momento: o trabalho, uma conversa, uma tarefa cotidiana. Aos poucos, relata, a intensidade da desrealização começou a diminuir.

O processo, porém, não foi linear. Houve momentos em que ele acreditou estar totalmente bem e, pouco depois, teve recaídas. “Foi um caminho de altos e baixos”, conta. Com o tempo, no entanto, os intervalos de melhora foram se tornando mais longos, e as quedas, menos frequentes. Até que, em determinado momento, percebeu que fazia tempo que não sentia mais os sintomas.

Ele também destacou a importância de compartilhar a experiência com pessoas de confiança. Embora nem todos compreendam exatamente o que é o DPDR, o apoio de familiares e amigos próximos fez diferença. “As pessoas não precisam entender tudo, mas precisam saber que você está passando por um momento delicado. Esse acolhimento ajuda muito. Já é difícil lidar com isso; esconder de quem você ama pode tornar tudo ainda mais dolorido”, finaliza.

Lucas Gabriel Marins é jornalista e futuro biólogo. Tem interesse em assuntos relacionados à ciência, saúde e economia.

Extraído do Portal Drausio